6000 Anos Antes...
Há muito tempo, os Eldrazi devoradores de mundos foram selados em Zendikar por três Planeswalkers: o dragão espiritual Ugin; o vampiro Sorin Markov; e um terceiro Planeswalker chamado a Litomante, sobre quem pouco se sabe nos dias de hoje.
Hoje, olhamos para trás no tempo, mais de 6.000 anos atrás, para um plano cujo nome se perdeu na história.
Hoje, conhecemos a Litomante.
Uma muralha de pedra emergiu da terra nua, cercando o pequeno acampamento no que havia sido uma planície aberta e vulnerável. Era suavemente curva, com ameias elegantes.
Nahiri, chamada a Litomante, examinou seu trabalho e franziu o cenho. Era bem-feita, e em boas condições resistiria por séculos.
Estas não eram boas condições.
Havia talvez cem refugiados. Amanhã, moveriam o acampamento novamente, ou correriam o risco de ser engolidos por aquelas… coisas, fossem lá o que fossem. Eram abominações, criaturas saídas de pesadelo, e Nahiri não se dava ao trabalho de odiá-las. Que diferença faria?
— Posso ter uma palavra com você, Nahiri?
A voz seca e contida estava bem atrás dela, perto o bastante para que ela devesse ter ouvido o homem se aproximar, devesse ter sentido o hálito dele em seu pescoço. Mas ele andava como um gato, e não respirava, e a ideia de seus lábios tão próximos à sua garganta a fez estremecer. Vampiro.
Ela já sabia que ele estava lá de qualquer forma — ele caminhava sobre pedra nua, afinal —, mas ele próprio lhe dissera para não deixar ninguém saber todos os seus truques. Nem mesmo os amigos, e ela não tinha nenhuma certeza de que ele o era.
Ela se virou para encarar Sorin Markov — vampiro, Planeswalker como ela, protetor do plano chamado Innistrad, e a coisa mais próxima de um amigo que ela tinha naquele lugar tão distante do mundo em que nascera.
Formavam um par impressionante, e os refugiados — humanos, de cabelos escuros e bochechas rosadas — lhes davam amplo espaço. O cabelo dele era tão branco quanto o dela, mas sua pele era cinza-carvão onde a dela era alabastro. Eram os olhos que o marcavam de forma inconfundível como alienígena: negros onde deveriam ser brancos, com íris brilhantes e perturbadoras.
Eles abriram caminho entre as fogueiras dos refugiados até a borda do acampamento, onde a muralha de Nahiri contornava um afloramento rochoso baixo. Ficaram ali e olharam por cima da parede. O sol descia sobre as colinas à sua frente, e as formas horrendas no vale mergulhavam misericordiosamente na sombra.
— Você montou o acampamento deles — disse Sorin. — De novo. Acho que é hora de deixá-los por conta própria.
— Não — disse Nahiri. — Estamos aqui para salvá-los.
— Você está aqui para salvá-los — disse Sorin. — Eu estou aqui para deter essas criaturas, neste mundo, antes que se espalhem para outros — para o meu, ou para o seu.
Lá embaixo, no vale do rio, formas sombrias se contorciam. Os sons do acampamento eram abafados.
— Não consigo suportar vê-los sofrer — disse ela.
— Então olhe para o outro lado — disse Sorin —, e enxergue o quadro maior.
Nahiri relanceou o olhar para o acampamento. Alguns refugiados observavam os dois Planeswalkers.
— E qual é o quadro maior? — ela perguntou em voz baixa. — Estamos vencendo?
Sorin fitou a escuridão ondulante lá embaixo, imóvel como estátua.
— Não — disse ele.
Suas feições afiadas estavam ensombrecidas. Era culpa pelo fracasso? Ou desprezo pela fraqueza deles? Ela sequer queria saber?
— Poderíamos enfrentá-los — disse ele. — Juntos, talvez virássemos a maré. Mas não conseguiríamos manter essas pessoas seguras ao mesmo tempo.
— Não é uma opção — disse Nahiri. — Por tudo que sabemos, podem ser as últimas pessoas vivas neste plano. Precisamos salvá-las. Precisamos tentar.
— Muito bem — disse Sorin, alto demais. — Vamos sentar e segurar suas mãos enquanto somem no nada, e deixar esses monstros seguir em frente para devorar outros mundos. Tenho certeza de que vão encontrar grande consolo em saber que nós tentamos.
Ela relanceou o olhar para os refugiados. Não observavam mais os Planeswalkers; seus olhos estavam fixos nas pequenas tarefas que ocupavam suas mãos trêmulas. Todos, exceto um.
A menina tinha cerca de quinze anos, e seus olhos eram frios.
Nahiri queria dizer algo, qualquer coisa, que pudesse trazer algum conforto. Nenhuma palavra veio. Não podia prometer salvação, nem vitória — não podia prometer nada, exceto tentar. E depois da explosão de Sorin, o sentimento soava vazio.
Ela se afastou de Sorin e desceu do afloramento. Parou diante da jovem de olhos frios e duros.
— Qual é o seu nome? — perguntou.
— Lian — disse a menina.
— Você sabe usar uma espada?
Lian acenou com a cabeça. Estava desarmada.
Nahiri estendeu a mão para uma pedra próxima e deixou um antigo feitiço despertar dentro dela, um feitiço que aprendera quando ainda era mortal, e ainda jovem. Havia metal na pedra, e esta pedra era todas as pedras. Ela mergulhou a mão na rocha viva, que derreteu e borbulhou ao redor de sua mão branca como leite.
Alguns refugiados arfaram. Sorin franziu o cenho. A menina apenas observou.
Nahiri chamou o metal na pedra e sentiu sua mão fechar-se em torno do cabo de uma espada. Puxou, e uma lâmina elegante deslizou para fora da rocha fundida.
Ergueu-a por um momento, deixando-a brilhar ao sol poente, drenando o calor da forja até que ficasse fria ao toque. Ofereceu-a a Lian.
— Este é o seu mundo — disse ela. — Esta pedra, esta terra, é sua para defender. Se você não acha que pode contar conosco, então não conte.
Lian pegou a espada, testou seu peso e seu equilíbrio.
— Vamos todos morrer, não é? — disse ela, baixinho.
— Não sei — disse Nahiri. — Mas se for assim, você pode ao menos morrer lutando.
Lian acenou com a cabeça.
Nahiri se voltou para Sorin.
— Que belo gesto — disse ele, desta vez em voz baixa o suficiente para que só ela ouvisse. — Suponho que uma esperança falsa seja melhor que nenhuma.
— Qualquer esperança é melhor que nenhuma — disse Nahiri. — Sempre.
Sorin franziu o cenho, mas antes que pudesse responder, a terra retumbou. Nahiri tropeçou, mas se manteve de pé. Havia pequenos tremores ao longo do dia, mas nada assim.
O chão do vale estava em plena sombra, com os corpos sinuosos e contorcidos do inimigo se movendo por ela, em cores doentias e formas retorcidas. Mas haviam ficado estranhamente imóveis, pela primeira vez nas semanas em que Sorin e Nahiri os enfrentavam. Viraram-se para o oeste, em direção ao sol poente, e começaram a balançar.
Então uma figura, impossivelmente grande, emergiu por trás das colinas do outro lado do vale. Era enorme, monumental, estranha e terrível de contemplar, toda ossos brancos e tentáculos musculosos.
A terra tremeu de novo. A coisa massiva se virou. Vinha em direção a eles. E quando se moveu, as massas fervilhantes no vale avançaram, como limalhas de ferro alinhando-se a um ímã.
— Posições de combate! — gritou Nahiri.
Os refugiados estavam paralisados. Todos fitavam além dela, para cima, na distância infinita entre o que sabiam ser verdade e o que seus olhos agora lhes diziam. De que valiam armas e táticas contra um deus irado e disforme?
— Movam-se! — gritou Lian.
Os refugiados entraram em ação, empunhando armas, desmontando o acampamento, preparando-se para lutar ou fugir. Pais apertavam seus filhos. Um homem com a perna quebrada se levantou, apoiando-se numa lança.
O tremor era constante agora, a terra retumbando. Nuvens espiralizavam em direção à monstruosidade no horizonte, e pedaços de terra flutuavam no ar ao redor dela e começavam a se despedaçar.
A primeira onda de horrores estridentes alcançou o acampamento. Guinchavam e berravam, ganiam e uivavam, mandíbulas estalando, garras rasgando, tentáculos se agitando e cabeças brancas como osso sem olhos. Os menores tinham o tamanho de cães. Os maiores eram grandes como edifícios, avançando pesadamente pela horda. Os pequenos se amontoavam contra a muralha, seus companheiros escalando-os para transpô-la.
Nahiri sacou sua espada. Sorin tomou posição de um lado dela, Lian do outro, e enfrentaram a maré avassalante de carne e loucura.
Sorin agitou a mão, e uma dúzia das monstruosidades murchou em pó. Nahiri concentrou sua vontade, e dezenas mais afundaram no solo rochoso. Mas havia mais, sempre mais, e a maior delas lá fora era um vórtice que puxava tudo — seus corpos, suas mentes, até mesmo sua magia. Nahiri sentia seu mana escapar em espiral enquanto ainda tentava reuni-lo.
O chão solavancou. O cabelo de Nahiri começou a se arrepiar. O sol poente silhuetava o monstro diante delas — não, mais do que o sol. Luz, uma luz terrível, como nenhum mundo deveria jamais ver. Um abismo se abriu, fendendo a muralha de Nahiri, brilhando com a mesma luz sobrenatural. Nahiri tentou fechá-lo pela força de vontade, mas nada aconteceu.
Não era uma fenda no chão. Era uma fenda no mundo.
O plano estava se desfazendo.
— O que é isso? — gritou Lian. Seu rosto estava ensanguentado, mas ela ainda estava de pé, espada em mãos.
— Isso — disse Sorin, com voz estranhamente calma —, é o fim.
A luz se tornou insuportável. Fracamente, como se de uma grande distância, as pessoas que haviam protegido por semanas gritaram, pararam de gritar e foram varridas. Nahiri sentiu seu corpo elevar-se enquanto a própria terra começava a se desfazer.
— Nahiri! — disse Sorin. — Acabou!
Ao seu lado, Sorin desapareceu num clarão. Ela tentou agarrar o braço de Lian, mas a menina havia sumido, arrebatada pelas sombras na luz. A espada que ela carregara ainda estava ali, flutuando no ar ofuscante.
Amaldiçoando-se em silêncio, Nahiri agarrou a espada e deixou o mundo para trás.
Zendikar. Lar.
Era o ponto de encontro que haviam combinado, um lugar seguro onde nenhum outro Planeswalker interferiria. Este mundo estava sob a proteção de Nahiri.
Sorin não havia oferecido Innistrad como ponto de encontro. Provavelmente preocupado com as monstruosidades que poderiam segui-lo. Era cauteloso demais, mas talvez a cautela fosse o resultado natural da idade. Ele tinha pelo menos mil anos, e às vezes ela se perguntava como teria sido conhecê-lo quando era jovem.
Sentaram-se em silêncio à beira de um assentamento kor temporário nas rugosas terras altas de Akoum, descansando, restaurando os vínculos que lhes forneciam mana. Se Sorin sentia algum traço de arrependimento pelo que havia acontecido, nada disso chegava ao seu rosto. Nahiri segurava a espada, o último vestígio de um mundo agora morto.
— Nahiri — disse Sorin. — Temos companhia.
Ela também o sentiu, uma espécie de pressão no ar que significava que algo emergia do Éter. Levantou-se, o coração acelerado.
— Eles —
— Não — disse Sorin. — Grande demais não. Mas grande.
Então ele estava lá com eles: um dragão enorme e etéreo, brilhando com luz azul-branca. Dois chifres achatados curvavam-se ao redor e para trás de sua cabeça, névoa escorria dele, e longas asas se dobravam com elegância atrás de seu corpo esguio. Era imenso, facilmente doze metros, mas havia aparecido a alguma distância deles, e tudo em sua postura transmitia intenção pacífica. Mesmo assim, Nahiri sacou sua espada.
— Vocês perceberam — disse o dragão luminoso — que temos um problema.
— Não há nenhum "nós" aqui, dragão — disse Sorin, levantando-se. — Há nós, e há você. E Zendikar está sob a proteção dela.
— Olá para você também, Sorin de Innistrad — disse o dragão. — E ao contrário, quando se trata deste problema, "nós" significa todos, em todo lugar.
Ele virou sua enorme cabeça em direção a Nahiri.
— Sou Nahiri, guardiã de Zendikar — disse ela. Encarou os olhos insondáveis do recém-chegado e tentou não parecer com medo. — Seja quem for, você está aqui por minha tolerância.
— Claro — disse o dragão, inclinando a cabeça. — Bem encontrada, Nahiri de Zendikar, e obrigado pela sua hospitalidade.
Ele se virou de volta para Sorin.
O semblante carrancudo de Sorin se aprofundou.
— Nahiri, este é Ugin, chamado o Dragão Espiritual. É tão antigo quanto o tempo, e quase tão fácil de discutir.
Parece com alguém que eu conheço, pensou Nahiri.
— Suponho que vocês se conheçam — disse ela.
— Já trabalhamos amigavelmente juntos no passado — disse Ugin.
— Não recentemente — disse Sorin. — Ugin, o que você quer?
— Sua ajuda — disse Ugin.
Ele ergueu uma mão e conjurou uma pequena imagem espectral da coisa enorme que haviam visto no horizonte daquele mundo condenado.
— Você nos observava — disse Nahiri, compreendendo. — E não ajudou.
— Há um Multiverso inteiro de pessoas para ajudar — disse Ugin —, e uma infinidade de maneiras de ajudá-las. Enquanto vocês tentavam travar uma grande batalha, eu observava e aprendia, para que essas criaturas possam ser detidas a longo prazo. Este é um objetivo que os três compartilhamos.
— Este é o meu objetivo — disse Nahiri. — Mas questiono o julgamento moral de quem vê a destruição de um mundo inteiro como um projeto de pesquisa.
— O que você aprendeu sobre elas? — perguntou Sorin, ignorando-a.
Que maravilha. Os adultos estavam conversando. Ele já havia feito isso antes, ao se encontrar com outros Planeswalkers. Mas ela confiava no julgamento de Sorin, em sua maior parte. Ouviria o dragão até o fim.
— São chamados de Eldrazi — disse Ugin —, e devoram mundos inteiros. Não são verdadeiros Planeswalkers, mas se movem livremente entre planos. São organismos vivos, aparentemente nativos das Eternidades Cegas — as únicas criaturas conhecidas a existir nelas. Se não forem detidos, representam uma ameaça para cada mundo.
— Eles não podem ameaçar cada mundo — disse Sorin. — O Multiverso é infinito.
— Você claramente não acredita nisso — disse Ugin. — Se há uma infinidade de mundos, por que salvar qualquer um deles? Por que não simplesmente ir para outros mundos, à frente dos Eldrazi? Não. O Multiverso é imenso, mas seu conteúdo é finito. Acreditar no contrário é acreditar que nada importa. E quando você tiver a minha idade, entenderá que o niilismo é um luxo que não pode se dar.
Sorin franziu o cenho, mas não disse nada. Talvez realmente acreditasse em tudo o que dizia sobre a sabedoria que vem com a idade.
— Como os detemos? — perguntou Nahiri.
— Isso apresenta um dilema — disse Ugin. — São criaturas das Eternidades. O que vocês viram devastar aquele plano era uma projeção, uma sombra de Éter vivo lançada sobre o espaço tridimensional.
Nahiri tentou imaginar Éter vivo, mas em sua mente via apenas a coisa que havia encoberto o sol. Parecia sólida o bastante.
— Daí o dilema — continuou Ugin. — Se os enfrentamos nas Eternidades Cegas, enfrentamos seu poder total em um ambiente onde mesmo nós mal conseguimos sobreviver. Mas se derrotamos apenas suas extensões físicas — façanha nada trivial em si mesma, como vocês viram — ainda assim não realizamos nada, pois suas formas verdadeiras residem no Éter.
— Precisamos encontrar uma maneira de destruí-los — disse Sorin.
— Isso pode não ser possível — disse Ugin —, e certamente não é sábio.
— Mundos estão morrendo — disse Nahiri. Ela repousou a mão no cabo de sua espada. — Que sabedoria poderia haver em deixar essas coisas vivas?
— Você sabe o que elas são, Nahiri de Zendikar? — perguntou o dragão. Ele baixou sua enorme cabeça para encará-la nos olhos. — Sabe se habitam alguma ecologia invisível, ou o que acontecerá se forem destruídas? Elas merecem a morte? O seu julgamento moral se estende apenas a seres que você compreende? Consegue responder a alguma dessas perguntas?
Ele fitou Sorin.
— E Sorin, você acima de todos entende a necessidade do equilíbrio.
A observação pareceu-lhe apontada, mas ela não conhecia o bastante do passado de Sorin para ter certeza.
— Você está falando em hipóteses — disse Sorin. — Não consigo imaginá-lo pedindo cautela com tamanha santimônia se o seu próprio mundo estivesse em perigo.
Aquilo também pareceu apontado. E Ugin não havia dito o nome do seu mundo natal, pois não?
— O que você está sugerindo? — perguntou Nahiri. — Você diz que quer detê-los sem destruí-los. Deve ter um plano.
— Podemos aprisioná-los — disse Ugin. Ele conjurou outra ilusão, desta vez o esboço de uma rede impossivelmente complexa com milhares de nós e centenas de linhas suavemente curvas. — Vinculá-los a um plano usando suas formas físicas como âncoras e forçá-los à dormência. Ao contrário de matá-los, isso pode realmente funcionar. E me daria tempo para estudá-los sem permitir que mais mundos caíssem.
— Você acha que pode aprisionar todos eles? — perguntou Nahiri.
— Todos os três, sim — disse Ugin.
— Três? — disse Sorin. — Atualize suas anotações de campo, dragão. Lutamos contra milhares.
— Vocês lutaram contra extensões — disse Ugin com um gesto despreocupado da mão. — Meros órgãos de um ser maior. Há três Eldrazi verdadeiros soltos no Multiverso. Na ausência deles, a ninhada definhará e morrerá, tão certo quanto uma mão ou um pé. Atraímos esses três para um plano e os aprisionamos lá.
— Este plano seria sacrificado? — perguntou Sorin.
— Arriscado, certamente — disse Ugin. — Mas os meios pelos quais enjaularemos os Eldrazi também servirão para colocá-los em estase. Se tivermos êxito, o mundo que os aprisionar seria danificado, mas não destruído. Se falharmos, então sim, está condenado. Mas já estava condenado de qualquer forma.
— E que plano você pretende… arriscar? — perguntou Nahiri.
Ugin olhou ao redor, sua cabeça com chifres varrendo a vista rochosa de Akoum.
— Deve ser grande — disse ele. — Rico em mana. Pouco habitado. De preferência um lugar onde possamos facilmente estabelecer uma base de operações, um mundo que não esteja sob a proteção de outro Planeswalker, e onde um de nós possa vigiar os Eldrazi enquanto dormem.
Ali estava. A verdade nua e crua. Depois de todo aquele discurso sobre fazer a coisa certa…
— Innistrad não preenche esses critérios — disse Sorin. — Por que não o seu mundo natal, onde quer que seja?
— Ele também é inadequado — disse Ugin. — Poderíamos procurar tal plano, mas levaria tempo. Tempo durante o qual mais mundos cairiam. Seria melhor começar imediatamente.
Os dois antigos Planeswalkers se voltaram para Nahiri. Ugin era impassível. Sorin piscou seus brilhantes olhos alaranjados devagar, como um gato espreitando sua presa.
Ela apertou a espada forjada em pedra, arrancada da terra de um mundo destruído.
— Não.
— Nahiri… — disse Sorin, no que ela costumava chamar de sua voz de pai contrariado. — Você viu o que fizeram àquele lugar. Você pode impedir que aconteça de novo. Ouviu Ugin. Se tivermos êxito, Zendikar sobrevive.
— Arriscado — disse Nahiri. — Danificado. O que me dá o direito de colocar todos aqui em perigo?
— O que lhe dá o direito de não fazê-lo? — perguntou Ugin. — Estou lhe dizendo que podemos arriscar um mundo para salvar todos os outros. E todos os mundos, incluindo este, já estão em risco. A escolha é óbvia.
Ele baixou a cabeça para encará-la nos olhos.
— Se preferir não colocar o seu próprio mundo em perigo, podemos tomar o tempo necessário para encontrar outro plano que atenda às nossas necessidades. Se for defendido por um Planeswalker, convencemos seu guardião a cooperar — pela força, se necessário. Se for indefeso, simplesmente começamos.
— E o que nos dá o direito? — Nahiri perguntou de novo. — Sim, tudo bem, arriscar um mundo para salvar os outros. Se podemos deter esses Eldrazi, talvez… talvez isso signifique que precisamos fazê-lo. Mas o que nos dá o direito de escolher qual mundo deve carregar o fardo?
— Que alternativa há? — perguntou Sorin. — Devemos fazer um referendo?
— É por isso que escolhi Zendikar — disse Ugin em voz baixa. — Porque ele tem uma protetora, alguém que já escolheu tomar seu destino em suas mãos. Alguém que fará a coisa certa.
— E se eu recusar? — perguntou Nahiri. — Vai me "convencer" pela força?
— Não — disse Ugin. — Porque também preciso da sua ajuda.
Sorin e Nahiri olharam para o dragão luminescente.
— Vocês dois possuem habilidades que me faltam — disse Ugin. — E o trabalho é grande demais para um único Planeswalker, por mais poderoso que seja. Três deles, três de nós. Juntos, podemos salvar tudo o que existe.
Nahiri se ajoelhou e pressionou a mão contra o chão. Akoum era altamente vulcânico, e a terra pulsava com o batimento cardíaco do magma em movimento. Ela se estendeu ainda mais, para a ondulante Ondu e a Tazeem cruzada por rios e a fervente e sulfurosa Guul Draz. Sentiu Zendikar, todo ele. Mas seu povo era um mistério para ela, suas pegadas silenciosas contra o pano de fundo retumbante da terra viva.
Ela pensou naquelas fendas no mundo, na luz branca transbordando do nada e do vazio para sugar tudo para dentro.
Viriam aqui eventualmente, se não fossem detidos. Viriam, e quando viessem, ela não seria capaz de proteger seu mundo. E se os aprisionasse em algum outro mundo, para salvar o seu, como se perdoaria? O ar de seu amado lar teria para sempre um sabor de culpa.
Zendikar era forte. Conseguiria suportar os Eldrazi tempo suficiente para aprisioná-los. Zendikar seria a prisão deles, Nahiri a carcereira, um mundo e um Planeswalker firmes como rocha para proteger todos os outros.
Ela se levantou, contemplando a beleza áspera de Akoum.
— Qual é o plano?
Os preparativos de Ugin haviam sido minuciosos. Ele havia elaborado uma maneira de aprisionar os Eldrazi usando uma rede cuidadosamente moldada de linhas de força e nós mágicos. O que precisava era de alguém para construí-la.
Nahiri era muito boa em construir coisas.
Levou quarenta anos de trabalho quase ininterrupto. Um por um, ela arrancou da terra formas de pedra cuidadosamente trabalhadas — hedrons, Ugin os chamara, e o nome pegou. Ela preencheu os céus de Zendikar com pedra, e Ugin os gravou com runas dracônicas que os mantinham no ar e vinculariam os Eldrazi a este lugar.
Os hedrons eram isca além de armadilha, emitindo pulsos de energia mágica que atraíam os Eldrazi como o cheiro de sangue atrai tubarões. Lenta e pesadamente — e, relatou Sorin, ignorando outros mundos ao longo do caminho — os Eldrazi se aproximavam de Zendikar.
Nahiri espalhou notícia por todo o plano do que estava por vir, para as sereias, os kor, os humanos, os elfos. Os anfíbios surrakar sussurravam uns para os outros nas profundezas borbulhantes sobre a chegada de deuses monstruosos, e os anjos de Zendikar patrulhavam os céus entre os hedrons com olhos vigilantes.
Quando os Eldrazi chegaram, Zendikar estava tão preparado quanto qualquer mundo jamais esteve.
Um titã Eldrazi à distância havia sido monstruoso, uma abominação. Três juntos, vistos de perto, eram uma impossibilidade.
Aquele que Sorin e Nahiri haviam visto antes, a coisa enorme que Ugin chamava de Ulamog, era de fato o menor dos três. O titã chamado Kozilek avançava pelos campos de hedrons, grandes lâminas negras de obsidiana sem sentido flutuando ao redor do que deveria ser sua cabeça. E acima deles, em todo sentido, estava Emrakul, uma torre horrenda de carne treliçada e tentáculos ávidos flutuando preguiçosamente sobre a terra despedaçada.
Ugin soprou seu fogo-fantasma, chamuscando a ninhada Eldrazi com chamas invisíveis. Sorin contrabalançou seu poder de drenar a vida com o próprio, sugando as forças deles antes que pudessem consumir demais da vitalidade de Zendikar. O povo de Zendikar combateu as linhagens da ninhada dos titãs, mas era claro que se o ataque continuasse, eles também seriam engolidos.
Os titãs eram indiferentes, sem mente, avançando inexoravelmente em direção ao nexo da rede de hedrons, a fonte do chamado que os atraíra até aqui, o olho da tempestade.
Nahiri os aguardava, na câmara subterrânea que ela e Sorin haviam chamado de Olho de Ugin. Para Sorin, era provavelmente uma provocação. Para Ugin, talvez fosse orgulho, embora fosse difícil dizer. Para ela, era uma mensagem: Lembre-se, dragão. Esta foi ideia sua.
Houve uma torrente de mana, e então Sorin e Ugin estavam lá com ela. A terra tremeu, as paredes cristalinas do Olho cantando em vibração simpática.
— Estão em posição — disse Ugin.
Os três Planeswalkers concentraram seu tremendo poder em um único ponto, uma pedra-nexo ligada a cada outro hedron por linhas de força e mana invisíveis.
Cada hedron no plano brilhou enquanto se deslocavam para novas posições. A rede tomava sua forma final. Da gelada Sejiri ao Mar de Silundi, Zendikar estremeceu com o esforço.
Então estava feito.
Selaram a câmara com uma trava mística, que só podia ser aberta por três Planeswalkers juntos, e abriram caminho até a superfície semiarruinada.
Erguendo-se sobre as terras altas de Akoum, os três Eldrazi estavam petrificados, cercados por uma teia de hedrons flutuantes. Nahiri conhecia a terra dali. Ela já reagia, crescendo ao redor dos grandes Eldrazi como uma crosta sobre uma ferida. Os Dentes de Akoum os engoliriam, e os habitantes de Zendikar varreriam o plano de sua ninhada. Zendikar havia sobrevivido, devastado mas inteiro, e seu povo aprenderia a viver à sombra dos hedrons.
— Muito bem, Nahiri — disse Sorin. — Este foi seu trabalho. Seu sacrifício.
Os três testariam a resistência da trava, certificando-se de que os titãs estavam seguros. Talvez Sorin e Ugin a ajudassem a varrer as ninhadas Eldrazi do território. Ela esperava que sim. E então, mais cedo ou mais tarde, os dois Planeswalkers mais antigos partiriam, e Nahiri — e os Eldrazi — permaneceriam.
Ela fitou as formas silenciosas e pedregosas. Muralhas de pedra já se arrastavam ao redor deles. Talvez em mil anos fossem esquecidos, sua destruição desvanecendo em lenda. Mas Nahiri não os esqueceria, e tampouco a própria terra.
— Este foi o nosso trabalho — disse ela. — O meu está apenas começando.
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